A história dos povos indígenas do Espírito Santo

Ouça o quadro Coisas do ES desta quinta-feira (19)

Publicado em 19/12/2019 às 12h05
Atualizado em 19/05/2021 às 05h02

Há milhares de anos diversos povos indígenas já habitavam as terras que compreendem o Espírito Santo, mas, ainda hoje, existe muito desconhecimento sobre a importância desses povos para a formação do Estado. No quadro Coisas do Espírito Santo desta quinta-feira (19), o comentarista Fernando Achiamé e o professor doutor em história, Júlio Bentivoglio, falam das etnias capixabas.

Bentivoglio recentemente lançou quatro obras com textos sobre os índios que existiram ou ainda existem em nosso território. São os livros da coleção “História dos Povos Indígenas no Espírito Santo” com os títulos: 1) Os Puri, 2) Os Tupiniquim; 3) Os Guarani; 4) Os Krenak. Confira detalhes da história desse povo, que segundo o Censo do IBGE de 2010, reúne apenas 10 mil habitantes no Espírito Santo. 

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"Os Puri": Os Puri é o volume que abre a coleção História dos Povos Indígenas no Espírito Santo. Cada livro será dedicado a uma etnia específica apresentando uma tradução inédita ou um estudo pontual acompanhado de ilustrações, fotografias e mapas para localizar as terras em que viviam ou ainda vivem os povos indígenas, colhendo aspectos de sua língua, práticas religiosas, hábitos alimentares, rituais, danças e artefatos. O intuito é que esse material diversificado, informativo e ricamente ilustrado possa servir de referência para pesquisadores, estudantes e interessados revelando a presença e a importância dos povos indígenas na formação histórica do Espírito Santo. Encontram-se em produção os demais volumes que tratarão de outras nações indígenas: os Coroado, os Pataxó, os Tupiquim, os Maxacali, os Guarani, os Temiminó e os Krenak.

"Os Tupiniquim": Os Tupiniquim foram os primeiros a entrar em contato com os invasores europeus, da nau Grorya, que em 23 de maio de 1535, sob o comando do donatário Vasco Fernandes Coutinho desembarcaram, na então Capitania do Espírito Santo, com a finalidade de iniciar a conquista do território. Recebidos por índios armados, dispostos a defender a terra que lhes pertencia, foi preciso disparar os canhões de modo a dispersá-los, para que os portugueses pudessem desembarcar. Em terra, teve início o projeto colonizador com a construção do primeiro núcleo de povoamento, a Vila do Espírito Santo. Foram os Tupiniquim que ajudaram os portugueses a expulsar os franceses da baía de Guanabara e também o povo responsável por proteger a região de ataques de invasores estrangeiros e/ou tribos inimigas.

"Os Guarani": As migrações guarani constituem um tema central na literatura etnológica. A interpretação clássica pautada na complexa cosmologia indígena como o núcleo da resistência étnica alinhada com a exegese linguística contribuiu, ao mesmo tempo, para descolar a cosmologia das práticas sociais. [...] A categoria indígena de território se substancializa no trânsito de pessoas e famílias, nas redes de parentesco; nos fluxos de saberes, fazeres e objetos (sementes, objetos rituais, peças artesanais, plantas medicinais, entre outros), nas reuniões políticas e nos rituais. Através de suas movimentações, os Guarani enfrentaram a grande dispersão dos aldeamentos e a alarmante redução das áreas de mata, ameaçadas e subtraídas aos coletivos indígenas por parte dos mais diferentes projetos de desenvolvimento.

"Os Krenak": A redefinição de lugares e a desconstrução de imagens cristalizadas sobre os índios na memória histórica são desafios que atravessam a escrita da história. A historiografia capixaba consolidou representações dos índios em função de certos paradigmas, estabelecendo diferentes relações desses povos com o passado. Por um lado, os grupos indígenas foram representados em função da superação do atraso. Nessa perspectiva, suas experiências foram interpretadas em uma narrativa do progresso, evidenciando uma classificação dicotômica que reduzia os índios ora a inimigos ora a aliados e os associavam ao atraso do Espírito Santo. Por outro lado, na produção historiográfica dos últimos anos resgata-se sua memória a partir do reconhecimento do passado indígena, em uma perspectiva crítica, desconstruindo imagens e estereótipos antigos e compreendendo os indígenas como sujeitos autônomos, em seu dinamismo social, histórico e cultural.