A fé que navega: conheça a Festa de São Pedro!
Ouça a participação do comentarista Rafael Simões

Festa de São Pedro: procissão maritima é marcada por devoção e fé. Crédito: Ricardo Medeiros
Nesta edição do "Espírito Santo: Que História É Essa?", o destaque é a a Festa de São Pedro, uma das manifestações mais antigas e tradicionais de Vitória. Diferente das festas de imigração do interior, ela é puramente litorânea, refletindo a simbiose entre o povo capixaba e o mar. Realizada em torno do dia 29 de junho, a celebração é o ponto de encontro de pescadores, marisqueiras e da comunidade urbana que mantém viva a tradição da pesca artesanal no coração da capital. Ouça a conversa completa!
1. Contexto histórico: a Vila Rubim e a Praia do Suá:
A festa tem dois epicentros históricos que disputam o protagonismo, mas que se unem na fé:
Vila Rubim: historicamente o centro do comércio popular de Vitória. A Paróquia de São Pedro, situada nesta área, é o ponto de partida da dimensão terrestre da festa. A região é marcada pela comercialização de ervas, peixes e utensílios de pesca, sendo o berço da devoção urbana ao santo.
Praia do Suá: onde se localiza a Colônia de Pescadores Z-1, a mais antiga do estado. É daqui que partem as embarcações para o ápice da festa: a procissão marítima. A Praia do Suá preserva a memória da "Vitória de Antigamente", quando a capital era uma rede de pequenas vilas de pescadores antes dos grandes aterros urbanos.
2. A procissão marítima: a liturgia sobre as águas:
O ponto mais importante e visualmente impactante é a procissão marítima pela Baía de Vitória.
O cortejo: dezenas (às vezes centenas) de embarcações, desde pequenos botes a remo até grandes escunas e lanchas de luxo, acompanham o barco
principal que carrega a imagem de São Pedro.
A decoração dos barcos: existe um concurso de barcos decorados. Os pescadores passam semanas ornamentando seus barcos com flores de papel,
bandeirolas coloridas, redes de pesca e até esculturas de gesso. Esta prática é um ato de "ex-voto" (pagamento de promessa), onde o pescador agradece pela proteção contra tempestades e pela abundância da safra.
O trajeto: o percurso cruza por baixo da Terceira Ponte e da Segunda Ponte, oferecendo um espetáculo que pode ser visto de vários pontos da cidade e de Vila Velha, integrando as duas cidades na mesma moldura devocional.
3. A bênção dos anzóis e das redes:
Diferente das missas convencionais, a Festa de São Pedro possui ritos específicos voltados à labuta marítima:
O rito de proteção: durante as celebrações, o padre benze não apenas os fiéis, mas os apetrechos de pesca. Antigamente, era comum os pescadores levarem seus anzóis e agulhas de tecer redes para serem aspergidos com água benta.
Simbologia do Santo: São Pedro é invocado como o "Capitão das Águas". Para o pescador artesanal, a festa é o momento de pedir que o santo "limpe o mar" (afaste a poluição e os maus tempos) e garanta que as redes não voltem vazias.
4. Gastronomia: o sabor da baía:
A festa é, sem dúvida, o maior festival gastronômico da pesca artesanal de Vitória.
A moqueca e a torta capixaba: a comida da Festa de São Pedro é feita pelas comunidades de pescadores. Utiliza-se o peixe fresco e o siri desfiado na hora.
A quermesse: as barracas instaladas na Praia do Suá e na Vila Rubim oferecem pratos típicos como o peroá frito, o caldo de sururu e o quentão,
essenciais para enfrentar o vento frio (o "Vento Sul") que costuma soprar no final de junho.
5. Sociologia: resistência e território:
A Festa de São Pedro é um ato de resistência cultural.
Ocupação do espaço: Vitória cresceu e se tornou um grande complexo portuário e urbano. A festa reafirma o direito dos pescadores de ocuparem a
Baía de Vitória, um espaço que muitas vezes lhes é negado pelo tráfego de grandes navios de carga.
A Colônia Z-1: a organização é liderada pela Colônia de Pescadores em parceria com a Prefeitura. Ela funciona como um sindicato cultural, garantindo
que a identidade da "classe marítima" seja respeitada e celebrada pelas novas gerações.
6. Fatos curiosos:
A imagem peregrina: a imagem de São Pedro usada na procissão é alvo de grande zelo. Existe um sorteio ou rodízio para decidir qual pescador terá a
honra de carregar o santo em seu barco, o que é visto como um sinal de que aquela embarcação terá um ano de "sorte no mar".
Guerra de água: em décadas passadas, era comum uma brincadeira onde as tripulações jogavam água umas nas outras durante o trajeto. Hoje, devido ao aumento de eletrônicos nos barcos e normas de segurança, a prática diminuiu, mas o espírito festivo e ruidoso permanece com foguetes e buzinaços.
São Pedro e a chuva: existe a crença popular de que "São Pedro está lavando o chão para sua festa". Por isso, os fiéis raramente se desanimam com o tempo instável comum nesta época do ano.
[fontes consultadas]:
SILVA, M. A. (2005). A Pesca Artesanal em Vitória: Aspectos Culturais e Sociais. Ed. UFES.
SANTOS, L. (2012). Mares de Fé: O Catolicismo Marítimo no Espírito Santo.
Jornal A Gazeta. Arquivo Histórico de Coberturas da Procissão Marítima (1960-2024).
Equipe de produção:
Rafael Cláudio Simões – Coordenador da série, doutor em história, professor do Mestrado e Doutorado de Segurança Pública e dos cursos de Relações Internacionais e Direito da UVV
Bruno Dias Franqueira – Professor dos cursos de Marketing e Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da UVV. Doutorando no Programa de Pós-graduação em Segurança Pública na UVV
Ignez Capovilla Alves – Professora dos cursos de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda e Fotografia da UVV . Doutoranda em Artes Visuais
pela UFRJ, mestre em Teoria da Arte na Ufes
Anna Julia de Paula Muzi – Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Daphynne Keyse Pagungue - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Eliza Ribeiro Corrente - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Júlia Pinto de Oliveira Furtado - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Lívia Nicolov Amaral - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Mariana Jarske Navarro - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica.