De cafés especiais à pecuária leiteira: mulheres protagonistas na história do agronegócio no ES

Ouça a reportagem especial da jornalista Dina Sanchotene

Publicado em 12/09/2026 às 11h13

Edineia e Jarlete são duas das mulheres capixabas que impulsionam trabalho no campo por meio de cooperativas. Crédito: Divulgação

Jarlete trabalha no campo desde pequena. Edineia foi morar longe da lavoura, mas decidiu retornar às suas raízes e se dedicar à cultura dos cafés especiais. Já Juliana gerencia a parte técnica de assistência aos cooperados, encontrando na cooperativa uma oportunidade de construir carreira.

Essas três capixabas são exemplos da força feminina que contribui para o aumento das mulheres no agronegócio do Espírito Santo.

O Anuário do Cooperativismo Capixaba 2025 apontou que o Espírito Santo tem 114 cooperativas, dessas 25 são ligadas ao agronegócio e movimentam mais de R$ 6 bilhões no estado. O estudo revela ainda que 14% delas são lideradas por mulheres.

A participação delas no segmento aumentou de 12,8% para 13,7% entre 2022 e 2024, representando um crescimento ainda tímido, mas crescente, de 1,4%. A maioria delas têm idade entre 30 e 59 anos, seguidas pelas com mais de 60 anos.

Dados da Nater Coop apontam que cooperadas investem de forma mais predominante em café, algumas atividades de leite e horticultura.

Jarlete da Penha Sotelle trabalha na roça desde pequena e carrega no sangue e nas mãos a tradição de uma família que está em sua quarta geração dedicada ao cultivo do café, em Santa Teresa, região serrana do Espírito Santo. Ela faz tudo sozinha, mas conta com a ajuda do filho em períodos específicos.

Inicialmente, a propriedade de Jarlete era voltada para o cultivo variado, mas foi a partir de 2012 que a produção do conilon ganhou força.

Se no início a rotina se resumia a plantar, colher e vender sem o uso de técnicas modernas, a virada de chave rumo aos cafés especiais começou com a instalação de estufas, aquisição de despolpador e o aprimoramento no manejo dos grãos.

A colheita passou a ser seletiva, priorizando apenas os frutos maduros, que são lavados e levados para secagem em terreiro suspenso, evitando qualquer contaminação.

A mudança deu tão certo que ao enviar as primeiras amostras para análise, em 2018, a alta pontuação confirmou que o empenho havia transformado a produção em um café de altíssima qualidade.

Para ter todos esses avanços, Jarlete contou com o suporte técnico da cooperativa e de órgãos de assistência, fundamentais na orientação sobre pragas e na análise sensorial dos grãos.

Da tradição ao reconhecimento internacional

Em Castelo, Edineia Pires Sartori administra a propriedade Recanto Feliz, junto com o marido Valentim Fiorese. São 12 hectares, sendo um terço destinado à produção cafeeira.

A trajetória da família no agronegócio começou a tomar novos contornos com o passar dos anos. Depois de um período longe da lavoura, em 2007, Edineia recebeu uma herança, contribuindo para a decisão de retornar às suas raízes.

Dois anos depois, Edineia decidiu ingressar no mercado de cafés especiais ao observar o que era feito nas propriedades vizinhas. Com muito aprendizado e apoio técnico, a estrutura adequada e o investimento foram feitos de forma gradativa.

Mais do que o ganho econômico, foi o cuidado detalhado com o grão que despertou uma verdadeira paixão pelo processo.

Para Edineia, trabalhar com café é um grande dom, pois há um grande amor naquilo que faz.

Se no passado a atuação das mulheres ocorria nos bastidores e sem o devido destaque nas cooperativas, hoje elas ocupam posição central, especialmente nas etapas de pós-colheita e secagem.

A sensibilidade e a dedicação feminina ao processo vêm transformando a dinâmica local.

O respaldo da cooperativa e de parceiros comerciais no suporte, principalmente na classificação dos grãos e na comercialização, foram fundamentais para a conquista de uma posição de destaque. A produtora reforça que o maior prêmio vai além do valor de venda.

Edineia também administra o Sítio Sertãozinho, em parceria com o irmão. Com ele, a produtora rural já conquistou o 2º lugar na categoria Arábica Lavado em uma premiação promovida pela Nater Coop.

Liderança feminina que transforma a pecuária leiteira no Espírito Santo

O protagonismo feminino no agronegócio não se define somente pelo cultivo de café. A médica veterinária Juliana Maria Piassi, de Nova Venécia, encontrou na cooperativa uma oportunidade para construir carreira ao se tornar uma profissional requisitada na cadeia leiteira.

Ela atua como gerente de assistência técnica da Nater Coop e o trabalho dela tem como objetivo garantir a qualidade da matéria-prima que chega ao laticínio.

O fato de ser mulher nunca foi um obstáculo para Juliana, mesmo em ambientes historicamente dominados por homens.

Sob a coordenação de Juliana, a cooperativa disponibiliza consultoria para o levantamento de custos e planejamento produtivo, além de programas voltados à nutrição animal.

Satisfeita e realizada em sua trajetória na cooperativa, ela defende a tecnologia e a análise de dados como ferramentas indispensáveis para que o produtor rural alcance a sustentabilidade do negócio, garantindo produtividade com menor desgaste de mão de obra.

Juliana, Edneia e Jarlete são apenas alguns dos exemplos da representatividade e da força feminina no agronegócio no Espírito Santo. Elas são modelos de liderança, inovação e excelência, além de serem pioneiras numa área em que a presença masculina é majoritária. Ouça a reportagem especial. 

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