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Tragédia completa um ano e família de porteiro continua sem respostas

Dejair das Neves morreu há exatamente um ano, no dia 19 de julho de 2016, deixando para trás três filhos

Thalia das Neves, filha do porteiro Dejair das Neves, lembra do pai: "O dinheiro não vai trazer ele, mas queremos Justiça"
Thalia das Neves, filha do porteiro Dejair das Neves, lembra do pai: "O dinheiro não vai trazer ele, mas queremos Justiça"
Foto: Fernando Madeira | A Gazeta

Enquanto o inquérito da Polícia Civil ainda não fica pronto para indicar os responsáveis pelo desabamento da área de lazer do Grand Parc, a família do porteiro Dejair das Neves, morto aos 47 anos, ainda luta na Justiça para conseguir indenizações. Uma das filhas dele, Thalia Vieira das Neves, de 19 anos, conversou com a reportagem e disse que o processo está lento. A família vive apenas com valores de pensão e o salário dela como vendedora, já que a mãe, que é costureira, está desempregada.

Dejair das Neves morreu há exatamente um ano, no dia 19 de julho de 2016, deixando para trás três filhos. Dois deles moram em Vitória e outra filha, de 24 anos, reside em Minas Gerais. Desde então, a família briga na Justiça, mas pouca coisa avançou. Um dos advogados dos familiares, Pedro Fraga, explica que são três ações na 7ª Vara do Trabalho de Vitória, movidas pelos irmãos de Dejair, três filhos e uma convivente, que tenta comprovar união estável. Os processos envolvem danos morais e materiais. Diversas empresas respondem pelas ações, incluindo a incorporadora e a administradora da construção, além de empresas ligadas a serviços de segurança e gestão de condomínios.

Queremos ter os mesmos direitos dos moradores, já que ele morreu. Estou vendo que o processo está andando mais rápido para eles.
Thalia Vieira das Neves, filha de Dejair

Uma das filhas, Thalia Vieira das Neves, de 19 anos, declara que a família não teve nenhuma assistência por parte da incorporadora do empreendimento e a família recebeu apenas o seguro de vida, dividido entre os três filhos de Dejair, no total de aproximadamente R$ 20 mil. Ela explica que, com valores de pensão pagos pela morte de Dejair, a renda da família gira em torno de R$ 1,5 mil mensais. Thalia vive com a mãe, o irmão, David, e a filha dela, Thalita, de um ano. “A gente não tem uma resposta definitiva do que será feito. Eu sei que o dinheiro não vai trazer meu pai de volta, ele morreu. Mas é questão de Justiça. Queremos ter os mesmos direitos dos moradores, já que ele morreu. Estou vendo que o processo está andando mais rápido para eles. Apesar de ser certo, para a gente nada ainda”, critica.

Na época do desmoronamento da área de lazer, Thalia estava grávida de nove meses e daria luz a filha, Thalita, uma semana depois. Hoje a saudade do pai bate e, segundo ela, o outro irmão, David, de 17 anos, demorou a entender a situação, mas que a ficha começou a cair neste ano para todos.

Um dos irmãos de Dejair, Devair das Neves, de 38 anos, afirma que a família demorou muito a aceitar a morte do irmão e que ainda sentem falta. “Ele era uma pessoa alegre e divertida. Chegava na casa da gente, sempre alegrava. Não foi fácil e não está sendo fácil, porque ele era uma pessoa que convivia muito com a gente, então até hoje não caiu a ficha. A gente fica imaginando que as coisas nunca serão as mesmas. Sempre está faltando um pedaço da gente”, acrescenta.

ACORDOS COM A INCORPORADORA

Com os moradores, a incorporadora do empreendimento, a Cyrela, firmou acordos individuais, com o pagamento de valores indenizatórios e também para a construção do condomínio. No total são cerca de R$ 130 milhões desembolsados pela empresa. Segundo o Comitê Gestor de Crise do Grand Parc, 91% dos proprietários acertaram o acordo até agora. Era necessária a aprovação de 70% dos moradores para iniciar a reconstrução do empreendimento.

Carla diz que resolveu não brigar na Justiça: "não posso esperar".
Carla diz que resolveu não brigar na Justiça: "não posso esperar".
Foto: Kaique Dias | Rádio CBN

A jornalista Carla Einsfeld, de 32 anos, foi uma das pessoas que aceitaram o acordo. Hoje, grávida, ela paga aluguel na Praia do Canto com os valores pagos pela incorporadora, mas diz que não quis entrar na Justiça pois sabia que o processo demoraria muito. “Eles estão ajudando a gente. Acho que não faltou apoio. É uma obrigação deles, mas poderiam dificultar muito mais nosso lado. É melhor ter algo agora do que ir para a Justiça e ficar anos sem ver a cor do dinheiro. Preciso do dinheiro agora. Não tenho condições de fazer uma briga dessas com a Cyrela”, argumenta.

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Não quero condicionar eles a viver esse estresse eternamente voltando para lá. Não vou conseguir tirar deles essa lembrança
Jecyane, ex-moradora do Grand Parc

Os valores para cada proprietário não foram divulgados oficialmente, mas quem não aceitou o acordo fala abertamente sobre a situação. Entre eles está a gestora de pessoas Jecyane Rodrigues Diniz, de 46 anos, que explica que foram oferecidos, para cada proprietário dos 166 apartamentos, R$ 150 mil, além da reconstrução da área de lazer. Um outro acordo feito no ano passado já previa o pagamento do aluguel, que chega a R$ 5 mil por mês até o final das obras, previsto para agosto de 2019. Ela diz porque não aceitou o que foi proposto. “Eu estava sozinha, meu marido estava de plantão. Eu estava com meus dois filhos, vi eles entrando em pânico, minha filha falando que a gente ia morrer. Eles desceram descalços, cortaram os pés e tiveram que pular uma laje de mais de dois metros. Não quero condicionar eles a viver esse estresse eternamente voltando para lá. Não vou conseguir tirar deles essa lembrança”, explica.

José Gama de Christo diz que Grand Parc deve ficar pronto em 2019 e que 91% dos proprietários aceitaram o acordo
José Gama de Christo diz que Grand Parc deve ficar pronto em 2019 e que 91% dos proprietários aceitaram o acordo
Foto: Kaique Dias | Rádio CBN

Jecyane está há duas semanas em um condomínio na Praia do Canto, em Vitória, onde comprou um apartamento. Ela pretende entrar na Justiça para rever o valor do apartamento que comprou no Grand Parc. Segundo o porta-voz do Comitê de Gestão de Crise do condomínio, José Gama de Christo, os moradores que não aceitaram o acordo continuam recebendo os valores de aluguel e podem entrar na Justiça. “Como o acordo dos aluguéis foi um acordo anterior, que foi feito no início, as pessoas continuam recebendo os valores para se manter residentes. Quem não assinou o acordo faz a outra opção que pode ser inclusive a judicialização, se achar que assim deve agir. Não existe um prazo, então acreditamos que esse percentual (de aceitação) pode aumentar”, diz.

OUTRO LADO

Em nota, a Cyrela informou que, por diretrizes da empresa, não comenta casos que estejam em trâmite judicial, porém esclarece que foi prestada assistência imediata à família do porteiro Dejair das Neves. Sobre os acordos, a empresa não comentou casos específicos, mas disse que foram firmados acordos individuais com os proprietários de apartamentos do Grand Parc para o pagamento de valores de indenização e reconstrução da área de lazer. Declarou que o “Grand Parc Residencial Resort” foi construído pela Incortel e que a Cyrela não foi a construtora responsável pela execução do empreendimento, como também não coordenou a direção dos serviços.

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A Incortel, administradora da obra, disse que a responsável pela construção foi a empresa Serv Obras, empresa que não retornou as ligações até o fechamento desta reportagem. A Incortel disse que durante todo o período não poupou esforços para colaborar com a elucidação dos fatos, inclusive contratando quatro escritórios de perícia técnica e laboratorial renomados, que “apresentaram provas inequívocas de que o subdimensionamento do Cálculo Estrutural foi a causa direta e exclusiva do desabamento da laje do Condomínio Grand Parc.”

A MCA, responsável pelos cálculos, disse, por meio de seu advogado nesta terça-feira (18), que a empresa está muito tranquila em relação ao trabalho desenvolvido pela Polícia Civil e que vai esperar a divulgação do laudo oficial para se pronunciar. A empresa ressaltou que os laudos periciais de terceiros não influenciam no contexto e tem consciência de que o projeto que desenvolveu no Grand Parc estava correto.

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