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Venezuelanas que fugiram da crise buscam vida nova no Espírito Santo

Conheça as histórias de Angela e Merlis: duas venezuelanas com histórias de vida diferentes, mas que, após enfrentar a crise de seu país natal, buscaram no Espírito Santo a possibilidade de começar uma nova vida

Angela David, venezuelana refugiada.
Angela David, venezuelana refugiada.
Foto: Fernando Madeira

A vida da venezuelana Angela Providencia David Cueva mudou completamente em janeiro de 2018. Naquele mês, ela chegou a Vitória como refugiada em busca de uma vida melhor e, principalmente, por conta de uma tragédia pessoal. O filho dela, que morou no Espírito Santo por dois anos, foi assassinado a facadas.

Angela chegou ao Brasil por Pacaraima, cidade de Roraima que fica na fronteira da Venezuela e onde recentemente aconteceram ataques a venezuelanos que tentam chegar ao Brasil em busca de melhores condições de vida. Após a viagem de ônibus entre os dois países, ela teve que caminhar por um longo trecho. Depois disso, conseguiu um transporte para Boa Vista, capital de Roraima, de onde pegou um voo para Vitória.

Não havia comida. Se alguém encontrasse um determinado produto, depois o vendia 50 vezes mais caro. O dinheiro não dava para nada
Angela David, venezuelana, explicando os problemas enfrentados pela crise no país

A venezuelana decidiu se estabelecer na capital capixaba porque considera que há mais oportunidades de trabalho e porque quer acompanhar de perto as investigações do homicídio do filho, Marcelo Miguel David, que foi encontrado morto dentro do quarto onde morava no Bairro República. A mãe, inclusive, pede para quem tiver alguma informação, entrar em contato pelo telefone 181, do disque denúncia da Polícia Civil.

Angela David, venezuelana refugiada.
Angela David, venezuelana refugiada.
Foto: Fernando Madeira

Segundo Angela, a ideia era que o filho a trouxesse para morar no Brasil por conta das dificuldades enfrentadas no país de origem dela. Na Venezuela, ela conta que as condições de vida estão cada mais precárias e que, antes de vir para Vitória, se viu obrigada a deixar a capital Caracas para voltar ao interior porque já era difícil se sustentar na cidade.

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“Minha família é do interior da Venezuela, mas morei quase 30 anos em Caracas. Chegou um momento em que voltei ao interior porque estava insuportável. Não havia comida. Se alguém encontrasse um determinado produto, depois o vendia 50 vezes mais caro. O dinheiro não dava para nada”, contou.

Angela, que é uma auxiliar de odontologia, hoje faz trabalhos esporádicos para conseguir dinheiro. Tem contado com a ajuda de instituições brasileiras, como Defensorias Públicas e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), para tocar a vida no Brasil. Ela estuda português diariamente e busca um trabalho, qualquer que seja, para se estabelecer no país.

A procura por melhores condições de vida também motivou a jovem Merlis Martinez, de 27 anos, a vir para o Brasil em março. Ela, que estava no terceiro semestre de Engenharia de Sistemas, teve que abandonar os estudos e deixar a Venezuela para tentar trabalhar e ajudar os seis irmãos e a mãe, que continuam no país.

Merlis Martinez, venezuelana.
Merlis Martinez, venezuelana.
Foto: Fernando Madeira

Ao conversar com uma amiga que mora em Roraima há dois anos, Merlis Martinez decidiu buscar um emprego no Brasil porque as condições de vida no país dela já eram difíceis. “Não estávamos comendo bem, vários dos meus irmãos estavam sem trabalho e com o salário mínimo não dá para viver.”

Em Roraima, ela conseguiu um trabalho como empregada doméstica. Por conta disso, conseguiu um visto que dá permissão a trabalhar e não está no país na condição de refugiada, apesar de ter vindo fugindo da crise venezuelana. Após alguns meses em Roraima, Merlis acabou vindo para Vitória para trabalhar na casa de parentes da família que a empregou no estado do norte brasileiro.

30 mil

é o número de venezuelanos que estão vivendo no Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE)

A jovem diz que quer voltar a estudar no Brasil e que, por enquanto, está tentando juntar dinheiro para trazer os irmãos para morar aqui, já que não pretende voltar à Venezuela. Por lá, as dificuldades da família continuam. “Minha mãe está comendo com o dinheiro que eu estou enviando para lá e meus irmãos estão sem trabalho, estão trabalhando por conta própria”, disse.

Merlis Martinez e Angela Providencia David Cueva fazem parte dos mais de 30 mil venezuelanos que estão vivendo no Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). No ano de 2015, eles eram apenas mil.

As duas venezuelanas estiveram nesta quinta-feira (30) em um debate promovido pela Ufes para discutir o acolhimento às pessoas que estão deixando a Venezuela e vindo ao Brasil. A ideia do evento surgiu após as notícias de agressões a venezuelanos em Roraima.  

 

 

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