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Falta de pessoal faz com que corpos sejam congelados até a perícia

Além do luto de perder um parente querido, famílias de pessoas mortas em algumas cidades do interior do Espírito Santo ainda precisam lidar com a angústia causada pela demora no recolhimento do corpo nos locais de crimes

Serviço de remoção de corpos, feito pela Polícia Civil
Serviço de remoção de corpos, feito pela Polícia Civil
Foto: Patricia Scalzer

Além do luto de perder um parente querido, famílias de pessoas mortas em algumas cidades do interior do Espírito Santo ainda precisam lidar com a angústia causada pela demora no recolhimento do corpo nos locais de crimes. Por conta da falta de motoristas para conduzir os carros da Polícia Civil, o serviço de remoção de corpos chegou a ser interrompido em algumas localidades e só acontece quando veículos de cidades vizinhas fazem a remoção.

Em cidades como Colatina, Linhares e São Mateus, motoristas das prefeituras foram cedidos para a Polícia Civil e dirigem os veículos de remoção. Agentes da Polícia Civil também afirmam que a eventual ausência de médicos legistas no Serviço Médico Legal de Cachoeiro Itapemirim, Linhares ou Colatina faz com que corpos tenham que ser até congelados à espera de perícia ou serem transportados por vários quilômetros para serem periciados no Departamento Médico Legal, em Vitória. Esses casos foram relatos durante a reunião da Comissão de Segurança e Combate ao Crime Organizado, na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, na última segunda-feira (25).

Em Colatina, maior cidades da Região Noroeste do Espírito Santo, policiais civis afirmam que apenas um motorista era responsável por dirigir o carro de remoção de corpos. O homem é um funcionário cedido pela prefeitura da cidade. Nos dias de folga do motorista, a remoção era mais demorada, porque era necessário o atendimento de municípios vizinhos. Em alguns casos, existem relatos que até carros de funerárias foram usados para fazer as remoções. Em Barra de São Francisco, também na região Noroeste, o serviço de remoção foi interrompido porque os três peritos que atuavam na área deixaram a Polícia Civil e não foram substituídos.

O problema da falta de motoristas também afeta a região Serrana do estado. A cidade de Venda Nova do Imigrante tinha um motorista cedido pela prefeitura da cidade, mas o serviço foi interrompido. Em casos de mortes na cidade, a remoção depende de veículos que saem de Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Estado.

No Norte do Estado, foram feitos relatos de que corpos recolhidos em São Mateus passaram a noite na cidade e só na manhã seguinte foram levados para o Serviço Médico Legal de Linhares, porque o motorista da prefeitura não iria fazer o transporte durante a noite.

Em situações normais de atuação, membros da Polícia Civil afirmam que os veículos de remoção deveriam ser dirigidos por auxiliares de perito criminal. O sindicato da categoria e o Governo do Estado afirmam que o problema acontece por conta de uma defasagem no quadro de funcionários. O Sindicato da Polícia Civil afirma que a corporação tem 33 auxiliares de perito criminal e o número deveria ser de 98 auxiliares. Em relação a possível falta de médicos legistas, como foi relatado nas cidades de Cachoeiro, Linhares e Colatina, o sindicato afirma que a corporação atua com 40 médicos e deveria ter 80. Os números são baseados em um cálculo feito com a quantidade de habitantes do estado. 

O presidente do Sindicato da Polícia Civil, Thadeu Nicolete, afirma que a remoção de corpos feita por pessoas sem o treinamento necessário, como acontece no caso de corpos removidos por funerárias, pode interferir até mesmo na investigação de crimes.

"Pode atrapalhar na resolução do crime. É quebra da cadeia de custódia. A prova material tem que vir da ponta até o arquivamento, para futuras consultas. Isso tudo obedece uma cronologia legalmente estipulada. Você não pode passar para terceiros, porque pode comprometer a resolução de um crime", opinou o perito.

DELEGADO-GERAL RECONHECE A FALTA DE MOTORISTA

Para que o problema da falta de motoristas nos carros de remoção seja resolvido e a população não sofra com a demora no atendimento, o delegado-geral da Polícia Civil no Espírito Santo, José Darcy Arruda, diz que apoia os convênios com as prefeituras e afirmou que alguns agentes aposentados da Polícia Civil voltarão à ativa para a condução dos veículos. Segundo Arruda, dois novos motoristas começaram esta semana a atuar no Norte do Estado.

"A Polícia Civil sabe das dores dos familiares em relação a essa situação (demora nas remoções) e ela faz de tudo para que isso seja minimizado. Quando isso ocorre, nós fazemos de tudo. Nós não deixamos que aquele corpo fique lá estendido no chão", declarou o delegado-geral da Polícia Civil.

O delegado-geral afirmou que o governo reconhece a defasagem no quadro de funcionários da corporação e argumentou que parte do contingente deve ser reposto ainda em 2019, com a realização de um concurso da entidade. A primeira etapa será realizada no mês de março e expectativa é para que os 173 aprovados, comecem atuar até o fim do ano. O processo seletivo prevê a contratação de assistentes sociais, auxiliares de perícia, escrivão, investigadores, médicos legistas, psicólogos e peritos criminais.