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Sem permissão para medicar, cubano mantém família com doações no ES

Bernardo Lopes Reyes atendia em um posto de saúde em Feu Rosa, mas teve que deixar o programa Mais Médicos, em novembro de 2018, com o fim do convênio

Médico Bernardo Reyes e a família moram de favor em um apartamento, na Serra
Médico Bernardo Reyes e a família moram de favor em um apartamento, na Serra
Foto: Eduardo Dias

No canto de um dos quartos da casa onde mora com a esposa e os três filhos pequenos, o médico cubano Bernardo Lopes Reyes aponta para algumas caixas de papelão. Dentro delas estão alguns pacotes com alimentos e caixas de leite. Tudo doação de conhecidos que acompanham as dificuldades que a família enfrenta: sem dinheiro, não há condições de pagar nem pela moradia, por isso estão de favor em um apartamento, no bairro Colina de Laranjeiras, na Serra.

Toda a dificuldade de Bernardo Reyes começou em novembro do ano passado, quando o "Mais Médicos" foi encerrado com a saída de Cuba do programa. Na época, Bernardo trabalhava em uma unidade de saúde no bairro Feu Rosa, na Serra, e acabou sem emprego.

 

Como não possui o registro para exercer a medicina no Brasil fora do programa Mais Médicos, o cubano não consegue trabalhar há quatro meses. Segundo ele, cerca de outros 50 médicos cubanos estão passando por uma situação semelhante no Espírito Santo.

Médico Bernardo Reyes vendeu cachorro quente para tentar pagar as contas
Médico Bernardo Reyes vendeu cachorro quente para tentar pagar as contas
Foto: Eduardo Dias

Nesse período, Bernardo chegou a vender cachorro quente e diz que tem procurado vaga em outros ramos, mas não conseguiu nada.

"Eles não acreditam que um médico possa fazer outra coisa fora da medicina. Por exemplo, ser ajudante de cozinha, trabalhar na faxina, como borracheiro ou ajudante de pedreiro. Não acreditam que a gente, como médicos, possa fazer alguma dessas coisas", disse.

Fora do Programa Mais Médicos, onde atuava com um registro específico do Ministério da Saúde, Bernardo só poderá trabalhar como médico no Brasil após fazer um exame nacional que reconhece diplomas estrangeiros de medicina no país, o Revalida. No entanto, não há data prevista para a prova acontecer. Enquanto isso, Bernardo diz que mantém a esperança do exame ser marcado e estuda cerca de seis horas por dia.

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Como não voltou para o seu país no período estipulado pelo governo cubana, o médico diz que foi considerado um desertor e não pode entrar em Cuba pelos próximos oito anos. Além disso, o filho mais novo do casal, o menino Gabriel, de 1 ano, nasceu no Brasil, o que dá direito ao médico de morar legalmente no país. O casal também tem um menino de 9 e outro de 4 anos. O médico se emocionou ao falar que o momento delicado afeta diretamente no comportamento das crianças.

"É muito difícil para um pai uma criança falar eu quero um brinquedo, que quer brincar ou tomar um sorvete, e eu ter que falar que não podemos ir, porque não estou trabalhando", disse o médico.

Para aumentar ainda mais a aflição da família, a esposa de Bernardo, a venezuelana Elvira Gomez, tem formação como professora de educação básica, mas só conseguiria trabalhar na área após realizar uma homologação do diploma, que custa cerca de R$ 600,00. Além dos problemas aqui no Brasil, Elvira também tem sofrido com a situação ruim de vários familiares na Venezuela. Como o salário de Bernardo era de aproximadamente R$ 5 mil, ela enviada dinheiro para a sua família na Venezuela. No entanto, ela diz que parou de fazer os repasses em dezembro e isso piorou a situação.  

SEM PRAZO

Procurado, o Ministério da Saúde informa, por nota, que a estimativa é de que cerca de 2 mil profissionais cubanos permaneceram no Brasil após o fim da cooperação. "O Ministério da Saúde não é responsável pelo Revalida. Para atuar no Programa Mais Médicos, o médico formado no exterior não precisava fazer o Revalida. O profissional recebe um Registro do Ministério da Saúde (RMS) que permite a atuação exclusiva no âmbito da Atenção Básica, apenas na Unidade Básica de Saúde do município escolhido". O Ministério da Saúde ainda estuda uma medida para os profissionais cubanos que permaneceram no país.

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