A fé que navega: conheça a Festa de São Pedro!

Ouça a participação do comentarista Rafael Simões

Publicado em 09/03/2026 às 11h43
Festa de São Pedro: procissão maritima é marcada por devoção e fé
Festa de São Pedro: procissão maritima é marcada por devoção e fé. Crédito: Ricardo Medeiros

Nesta edição do "Espírito Santo: Que História É Essa?", o destaque é a a Festa de São Pedro, uma das manifestações mais antigas e tradicionais de Vitória. Diferente das festas de imigração do interior, ela é puramente litorânea, refletindo a simbiose entre o povo capixaba e o mar. Realizada em torno do dia 29 de junho, a celebração é o ponto de encontro de pescadores, marisqueiras e da comunidade urbana que mantém viva a tradição da pesca artesanal no coração da capital. Ouça a conversa completa!

1. Contexto histórico: a Vila Rubim e a Praia do Suá:

A festa tem dois epicentros históricos que disputam o protagonismo, mas que se unem na fé:

Vila Rubim: historicamente o centro do comércio popular de Vitória. A Paróquia de São Pedro, situada nesta área, é o ponto de partida da dimensão terrestre da festa. A região é marcada pela comercialização de ervas, peixes e utensílios de pesca, sendo o berço da devoção urbana ao santo.

Praia do Suá: onde se localiza a Colônia de Pescadores Z-1, a mais antiga do estado. É daqui que partem as embarcações para o ápice da festa: a procissão marítima. A Praia do Suá preserva a memória da "Vitória de Antigamente", quando a capital era uma rede de pequenas vilas de pescadores antes dos grandes aterros urbanos.

2. A procissão marítima: a liturgia sobre as águas:

O ponto mais importante e visualmente impactante é a procissão marítima pela Baía de Vitória.

O cortejo: dezenas (às vezes centenas) de embarcações, desde pequenos botes a remo até grandes escunas e lanchas de luxo, acompanham o barco

principal que carrega a imagem de São Pedro.

A decoração dos barcos: existe um concurso de barcos decorados. Os pescadores passam semanas ornamentando seus barcos com flores de papel,

bandeirolas coloridas, redes de pesca e até esculturas de gesso. Esta prática é um ato de "ex-voto" (pagamento de promessa), onde o pescador agradece pela proteção contra tempestades e pela abundância da safra.

O trajeto: o percurso cruza por baixo da Terceira Ponte e da Segunda Ponte, oferecendo um espetáculo que pode ser visto de vários pontos da cidade e de Vila Velha, integrando as duas cidades na mesma moldura devocional.

3. A bênção dos anzóis e das redes:

Diferente das missas convencionais, a Festa de São Pedro possui ritos específicos voltados à labuta marítima:

O rito de proteção: durante as celebrações, o padre benze não apenas os fiéis, mas os apetrechos de pesca. Antigamente, era comum os pescadores levarem seus anzóis e agulhas de tecer redes para serem aspergidos com água benta.

Simbologia do Santo: São Pedro é invocado como o "Capitão das Águas". Para o pescador artesanal, a festa é o momento de pedir que o santo "limpe o mar" (afaste a poluição e os maus tempos) e garanta que as redes não voltem vazias.

4. Gastronomia: o sabor da baía:

A festa é, sem dúvida, o maior festival gastronômico da pesca artesanal de Vitória.

A moqueca e a torta capixaba: a comida da Festa de São Pedro é feita pelas comunidades de pescadores. Utiliza-se o peixe fresco e o siri desfiado na hora.

A quermesse: as barracas instaladas na Praia do Suá e na Vila Rubim oferecem pratos típicos como o peroá frito, o caldo de sururu e o quentão,

essenciais para enfrentar o vento frio (o "Vento Sul") que costuma soprar no final de junho.

5. Sociologia: resistência e território:

A Festa de São Pedro é um ato de resistência cultural.

Ocupação do espaço: Vitória cresceu e se tornou um grande complexo portuário e urbano. A festa reafirma o direito dos pescadores de ocuparem a

Baía de Vitória, um espaço que muitas vezes lhes é negado pelo tráfego de grandes navios de carga.

A Colônia Z-1: a organização é liderada pela Colônia de Pescadores em parceria com a Prefeitura. Ela funciona como um sindicato cultural, garantindo

que a identidade da "classe marítima" seja respeitada e celebrada pelas novas gerações.

6. Fatos curiosos:

A imagem peregrina: a imagem de São Pedro usada na procissão é alvo de grande zelo. Existe um sorteio ou rodízio para decidir qual pescador terá a

honra de carregar o santo em seu barco, o que é visto como um sinal de que aquela embarcação terá um ano de "sorte no mar".

Guerra de água: em décadas passadas, era comum uma brincadeira onde as tripulações jogavam água umas nas outras durante o trajeto. Hoje, devido ao aumento de eletrônicos nos barcos e normas de segurança, a prática diminuiu, mas o espírito festivo e ruidoso permanece com foguetes e buzinaços.

São Pedro e a chuva: existe a crença popular de que "São Pedro está lavando o chão para sua festa". Por isso, os fiéis raramente se desanimam com o tempo instável comum nesta época do ano.

[fontes consultadas]:

SILVA, M. A. (2005). A Pesca Artesanal em Vitória: Aspectos Culturais e Sociais. Ed. UFES.

SANTOS, L. (2012). Mares de Fé: O Catolicismo Marítimo no Espírito Santo.

Jornal A Gazeta. Arquivo Histórico de Coberturas da Procissão Marítima (1960-2024).

Equipe de produção:

Rafael Cláudio Simões – Coordenador da série, doutor em história, professor do Mestrado e Doutorado de Segurança Pública e dos cursos de Relações Internacionais e Direito da UVV

Bruno Dias Franqueira – Professor dos cursos de Marketing e Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da UVV. Doutorando no Programa de Pós-graduação em Segurança Pública na UVV

Ignez Capovilla Alves – Professora dos cursos de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda e Fotografia da UVV . Doutoranda em Artes Visuais

pela UFRJ, mestre em Teoria da Arte na Ufes

Anna Julia de Paula Muzi – Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Daphynne Keyse Pagungue - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Eliza Ribeiro Corrente - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Júlia Pinto de Oliveira Furtado - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Lívia Nicolov Amaral - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Mariana Jarske Navarro - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica.