Congo, ticumbi e o Carnaval: as festas populares negras no Espírito Santo!

Ouça detalhes na participação do comentarista Rafael Simões

Publicado em 29/12/2025 às 11h51
Carnaval de Máscaras de Congo de Roda d'Água, em Cariacica
Carnaval de Máscaras de Congo de Roda d'Água, em Cariacica. Crédito: Lucas Calazans/flickr

Nesta edição do "Espírito Santo: Que História É Essa?", o comentarista Rafael Simões, fechando a série especial do mês de dezembro sobre a cultura negra no Estado, traz como destaque as festas populares negras no Espírito Santo, símbolos de fé, política e identidade. Vamos às histórias:

1. O ciclo do congo: a batida da resistência:

O Congo é a manifestação cultural negra mais emblemática do Espírito Santo. Diferente de outras regiões do Brasil, o Congo capixaba manteve uma ligação umbilical com a luta pela liberdade.

A festa de São Benedito (Serra e Vitória): No município da Serra, a festa atinge seu ápice em dezembro. Segundo os documentos históricos, o santo negro não é apenas um ícone religioso, mas um símbolo de alforria. A famosa Fincada do Mastro simboliza o mastro de um navio, remetendo ao naufrágio do navio negreiro Palermo, onde, segundo a tradição oral, os escravizados teriam se salvado abraçados ao mastro que trazia a imagem de São Benedito. Instrumentos como voz: O tambor de congo (o "tamborete") e a casaca (instrumento antropomórfico único do estado) são descritos por Cleber Maciel como extensões do corpo do negro. Durante o período da escravidão e no pós-abolição, o som do congo servia como comunicação entre comunidades e demarcação de território frente ao avanço urbano.

2. O ticumbi: o drama da realeza negra:

Manifestação encontrada principalmente no norte do estado, em Conceição da Barra, o Ticumbi é uma das festas mais complexas do ponto de vista simbólico. Luta entre reis: A festa encena um "baile" ou guerra coreografada entre o Rei de Congo e o Rei de Bamba. O texto de Cleber Maciel destaca que essa representação é uma forma de manter viva a memória das estruturas políticas africanas (monarquias tradicionais) que foram fragmentadas pelo tráfico transatlântico.

Linguagem secreta: Os cânticos do Ticumbi possuem uma métrica e uma linguagem que muitas vezes confundiam as autoridades brancas da época, funcionando como uma forma de preservação de saberes ancestrais sob a máscara do catolicismo popular.

3. O jongo e o caxambu: memória e ancestralidade no Sul:

No sul do Espírito Santo, em comunidades como o quilombo de Monte Alegre (Cachoeiro de Itapemirim), o Jongo (ou Caxambu) é a festa central.

Roda de ancestralidade: diferente do Congo, que é mais processional, o Jongo acontece em roda. O Jongo é o "pai do samba" e era realizado nas fazendas de café como um momento de relaxamento, mas também de conspiração.

O ponto: os praticantes usam o "ponto" (cânticos metafóricos). Através deles, os negros podiam planejar fugas ou zombar dos feitores na frente deles, sem que estes entendessem o real significado das palavras.

4. A resistência no Carnaval: o bloco e a escola de samba:

No século XX, a festa popular negra migrou fortemente para as cidades, transformando o Carnaval em uma arena de disputa política. A Unidos da Piedade: Citada como o grande reduto negro de Vitória, a escola de samba surgiu no morro da Piedade como uma resposta cultural à segregação dos clubes de elite. A festa do Carnaval, para a Piedade, sempre foi uma forma de afirmar: "Nós estamos no centro da capital".

Blocos de Afoxé: Mais recentemente, o surgimento de blocos que trazem a estética do Candomblé para as ruas de Vitória e Vila Velha representa a retomada da visibilidade das religiões de matriz africana no espaço público, combatendo a intolerância religiosa através da festa.

Elementos comuns de resistência nas festas:

Elemento - Significado Político

O Tambor - chamamento comunitário e conexão com os ancestrais.

O Santo Negro - estratégia de ocupação da Igreja (espaço de poder) por negros.

A Dança - treinamento corporal e manutenção da saúde física e mental.

A Hierarquia (Reis/Rainhas) - preservação da dignidade e das linhagens africanas.

Para autores como Cleber Maciel, as festas populares no Espírito Santo nunca foram "apenas folclore". Elas foram estratégias de sobrevivência. Quando o negro capixaba saía às ruas para bater o tambor de congo, ele estava afirmando sua posse sobre a terra, sua religiosidade e sua recusa em ser invisibilizado.

5. A insurreição de Queimado e o simbolismo da festa:

5.1 O pacto quebrado: a origem da revolta

A história da Insurreição de Queimado gira em torno de uma promessa de liberdade. O missionário italiano Frei Gregório de Bene pretendia construir uma igreja em São José do Queimado e convenceu a população escravizada da região a realizar o trabalho em troca da alforria.

O trabalho: Os negros trabalharam arduamente na construção do templo.

A traição: No dia da inauguração, a liberdade prometida não foi concedida pelos senhores de escravos da região, que alegaram que o Frei não tinha autoridade para tal.

A revolta: Sob a liderança de figuras como Elisiário, Chico Prego e João da Viúva, os negros se levantaram em armas no dia 19 de março de 1849. Foi a maior revolta de escravizados da história do Espírito Santo.

6. O rap e o movimento hip hop: a consciência política:

O rap capixaba consolidou-se fortemente a partir da década de 90, bebendo diretamente da organização política de grupos como o CECN e o MNU-ES.

A rima como denúncia: grupos históricos e artistas contemporâneos utilizam a letra para falar sobre a realidade das periferias da Grande Vitória (Terra

Vermelha, São Pedro, Serra, Cariacica). As letras abordam temas como o extermínio da juventude negra, a violência policial e a falta de oportunidades.

Batalhas de rima: eventos como a Batalha do Tancredão ou a Batalha da Escadaria (no Centro de Vitória) são os novos "territórios negros". Nesses espaços, a juventude exerce a oratória e a criatividade, transformando o espaço público em arena de debate político, assim como faziam os antigos jongueiros com seus "pontos".

7. O funk capixaba: identidade e território:

O funk no Espírito Santo possui uma identidade muito própria, muitas vezes diferenciando-se do fluxo do Rio de Janeiro ou de São Paulo.

O Beat capixaba: musicalmente, o funk produzido aqui desenvolveu timbres e ritmos específicos. Para a juventude negra, o baile funk é um espaço de afirmação estética e de sociabilidade. Resistência cultural: Embora muitas vezes criminalizado pelo Estado (um processo de perseguição que Cleber Maciel já descrevia em relação ao Congo e ao Samba), o Funk é a principal voz econômica e cultural de muitos jovens negros nas periferias capixabas.

8. O trap: estética, ascensão e autonomia:

O Trap é o desdobramento mais recente e comercialmente potente do Hip Hop no estado. Empreendedorismo Negro: diferente das fases anteriores, o Trap capixaba é marcado por uma forte noção de gestão de carreira. Jovens negros estão criando seus próprios selos musicais e produtoras, garantindo que o lucro da sua arte permaneça na comunidade.

9. Conexão com a memória:

Um fenômeno interessante no Espírito Santo é a mistura desses gêneros modernos com elementos tradicionais. Congo-Rap / Afro-Pop: Artistas como Budah (que ganhou projeção nacional) e outros produtores locais frequentemente utilizam referências da ancestralidade negra capixaba em seus clipes e batidas. Não é raro ver a sonoridade da casaca ou do tambor de congo sendo sampleada em batidas de Rap ou Trap, criando uma ponte direta entre a resistência de Chico Prego e a juventude atual.

10. Conceitos históricos e de resistência:

Insurreição de Queimado (1849): A maior revolta de escravizados do Espírito Santo. Ocorreu na Serra após a quebra de uma promessa de alforria em troca da construção de uma igreja. É o marco máximo da agência política negra no estado. Clubes de Cor: Agremiações sociais fundadas pela população negra no início do século XX para lazer e articulação política, surgidas como resposta à exclusão em clubes da elite branca.

Irmandades de São Benedito e do Rosário: Organizações religiosas de leigos negros que, sob o manto do catolicismo, criaram redes de seguridade social, ajuda mútua e preservação de identidades africanas.

Equipe de produção:

Rafael Cláudio Simões – Coordenador da série, doutor em história, professor do Mestrado e Doutorado de Segurança Pública e dos cursos de Relações Internacionais, Direito e Administração da UVV

Bruno Dias Franqueira – Professor dos cursos de Marketing e Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da UVV. Doutorando no Programa de Pós-graduação em Segurança Pública na UVV

Anna Julia de Paula Muzi – Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Daphynne Keyse Pagungue - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Eliza Ribeiro Corrente - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Júlia Pinto de Oliveira Furtado - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Lívia Nicolov Amaral - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Mariana Jarske Navarro - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica.