De Zacimba Gaba a Chico Prego: conheça os líderes negros na história do ES!
Os detalhes na participação do comentarista Rafael Simões
De mulheres escravizadas a líderes quilombolas! Nesta edição do "Espírito Santo: Que História É Essa?", com o comentarista Rafael Simões, o destaque são os líderes negros que marcam a história do Estado. Vamos às histórias:
Zacimba Gaba (Século XIX):
Era princesa de Cabinda, em Angola, na África, do subgrupo étnico woyo (ou bawoyo), quando foi obrigada a vir para o Brasil, assim como outros negros, e escravizada, foi no Espírito Santo que Zacimba Gaba precisou lutar para sobreviver e salvar outras pessoas. Com o título de princesa da nação Cabinda, ela foi sequestrada junto ao povo para o Porto da Aldeia de São Mateus, no Norte do Estado. Lá, foi vendida como escravizada para o fazendeiro português José Trancoso. Após ser cruelmente torturada para revelar que fazia parte da corte em Angola, sofreu constantes estupros.
Durante os anos de violência, traçou o plano de fuga e vingança: proibiu que os negros tentassem libertá-la até que ela conseguisse envenenar os torturadores aos poucos. Após conseguir, fugiu com outros negros e criou o próprio quilombo. Ela passou o resto da vida libertando pessoas escravizadas em solos capixabas, atacando os navios que os traziam para o Espírito Santo. Como uma princesa guerreira, morreu em uma dessas ações.
Francisco de São José, mais conhecido como Chico Prego (? –11/01/1850):
Era escravizado, foi um dos líderes da revolução de Queimado, na Serra — uma das maiores do Estado —, e acabou morto por enforcamento, em janeiro de 1850. Em março do ano anterior, ele e outros escravizados se revoltaram porque o frei italiano Gregório José Maria de Bene havia dito que, após a construção da igreja de São José, todos seriam alforriados (libertos), mas o religioso não cumpriu a promessa. A revolta foi reprendida em apenas cinco dias pela polícia da província, a maioria dos rebeldes foram brutalmente assassinados e seus corpos foram despejados na Lagoa das Almas e os cinco líderes rebeldes, incluindo Chico Prego e João da Viúva, foram condenados a morte judicialmente, com exceção de Elisiário Rangel que fugiu da cela aberta. Os que sobreviveram se refugiaram para Cariacica, onde fundaram o Quilombo Rosa d’Água. Hoje, ele dá nome à lei de incentivo cultural do município de Serra.
Negro Rugério (século XIX):
Foi um grande líder quilombola do final do século XIX, que fundou o Quilombo do Morro em Santana, na região de Conceição da Barra, no Espírito Santo. Ele se tornou conhecido como o "rei da farinha" por ter estabelecido uma comunidade que foi um dos maiores centros de produção de farinha de mandioca do mundo, reunindo cerca de 40 escravos fugidos. A comunidade quilombola que ele fundou transformou-se no povoado de Santana, que hoje é reconhecido como um quilombo urbano.
Benedito Meia Légua (século XIX):
O líder quilombola Benedito Caravelas, mais conhecido como Benedito Meia Légua, nasceu em 1805, onde hoje é um município de São Mateus, no norte do Espírito Santo. O apelido foi dado por causa das constantes viagens a pé que ele fazia, sobretudo para a região Nordeste do Brasil. Benedito Caravelas invadia fazendas, quebrava senzalas, organizava fugas e ações em quilombos. Ele tinha como missão de vida libertar pessoas escravizadas. De acordo com registros históricos, um dia ele acabou aprisionado por um capitão do mato, arrastado pelas ruas de São Mateus e tão espancado que foi dado como morto. Seu corpo foi guardado dentro da igreja de São Benedito para ser sepultado, mas no dia seguinte só foram encontradas no local marcas de sangue e pegadas. A imagem de Benedito Caravelas então passou a ser comparada a de uma figura imortal, pois fugas e rebeliões continuaram ocorrendo para a libertação de pessoas escravizadas e dados históricos dão conta de que foi nesta época que surgiu a expressão: “Mas será o Benedito?”. Benedito Meia Légua morreu já idoso, por causa de uma traição. Seu esconderijo, dentro do tronco de uma árvore, foi denunciado e ele acabou morrendo queimado enquanto dormia.
Constância D’Angola (século XIX):
Constância D’Angola foi uma mulher negra escravizada que tem uma história marcada pela perda dolorosa de um filho: o bebê de Constância foi arrancado de suas mãos e jogado em uma fornalha. A criança foi queimada viva porque incomodou a sinhá Francelina Cardoso Cunha. O motivo para tamanha barbaridade? Porque a criança chorava muito. Os fatos ocorreram por volta de 1880, na Fazenda Boa Esperança, atual região da Serra de Cima, em Nova Venécia. De acordo com a história, Constância gritou, lutou, chorou, mas nada interrompeu a brutalidade da senhora. Viriato Canção de Fogo, que comandava um quilombo na região do Vale do Cricaré, soube do ocorrido e foi resgatar Constância. No quilombo ela aprendeu capoeira e a lutar com facas. Se tornou uma das guerreiras mais importantes da região. Enfrentava forças do governo e capitães do mato para ajudar seu povo.
Clara Maria Rosário dos Pretos (século XIX):
Na região do Vale do Cricaré, entre os municípios de São Mateus e Conceição da Barra, uma figura muito importante ganha destaque no movimento. Trata-se de Clara Maria Rosário dos Pretos, uma jovem negra escravizada que aprendeu a ler e a escrever com as “sinhazinhas”, e era observadora e crítica à realidade. Sendo assim, sempre estava atenta aos assuntos importantes conversados pelos senhores. Com isso, soube de uma reunião entre um grupo de abolicionistas, formado por filhos de fazendeiros, estudantes e intelectuais. Ela então juntou-se ao grupo e tinha como principal trabalho: ser o elo entre os negros que viviam em quilombos, em locais de resistência, e os abolicionistas. Ela conjugava as ações entre esses dois grupos.
Sua missão foi crucial em muitas lutas e na resistência. Ela sabia, por exemplo, onde doía nos senhores: no bolso, e umas das táticas usadas foi a queima de plantações.
Viriato Cancão-de-Fogo: (século XIX):
Trazido escravizado ao Brasil, tornou-se um símbolo de resistência e liberdade, lutando contra a escravidão junto a outros líderes como Benedito Meia-Légua. Conhecido por seus poderes, praticava a "Cabula", uma religião de matriz africana que assustava os fazendeiros, e curava com rituais e ervas, segundo relatos locais. Sua figura lendária é central na literatura de cordel, onde ele é retratado como um "malandro" esperto, astuto, que usa sua inteligência para enganar os ricos e poderosos, sendo comparado a João Grilo. É uma importante personalidade cultural do Espírito Santo, representando a luta pela liberdade e a força dos povos escravizados.
Eurico de Aguiar (1863–1921):
Eurico de Aguiar foi um jornalista, advogado e político abolicionista de grande importância. É considerado o primeiro deputado negro eleito no Espírito Santo e teve atuação crucial no final do Império e início da República. Ele lutou ativamente pela causa abolicionista e usou sua influência política para combater o racismo e defender os direitos da população negra. Sua trajetória é um marco na representação política negra no estado.
Dona Domingas (? - 1966):
Dona Domingas e sua irmã Olíria gostavam de pegar caranguejos nas águas que batiam perto do Palácio, onde hoje é a escadaria. Algum tempo depois mudaram para o morro do Pinto no Bairro de Santo Antônio. Muito devota, frequentava a Igreja de Santo Antônio. No caso de Dona Domingas Fernanda, é importante destacar a questão da situação específica das mulheres negras e da questão do meio ambiente/mudanças climáticas/reciclagem, atividade que ela foi, com toda certeza, uma pioneira em nosso estado.
Laura Felizardo (1928 - 2020):
Matriarca da cultura Bantu no Espírito Santo, Laura Felizardo é uma das personalidades mais lembradas do congo capixaba. Em pesquisas feitas pelo filho de Dona Laura, o bailarino e coreógrafo Paulo Fernandes, foi o avô de dela, Colodino Felizardo, um dos que trouxe os ritmos do congo da África para o Estado, implantando a cultura na comunidade Morro do Feijão, em João Neiva. Com uma infância difícil devido à falta de oportunidade para negros e negras, Laura trabalhou como empregada doméstica desde muito cedo. Após criar o filho, ela largou o trabalho pesado e foi incentivada por ele a atuar na cultura do Espírito Santo, não apenas através do congo, mas também no teatro. Nos últimos anos, Laura residiu no Centro de Vitória e recebeu diversas homenagens nas Câmaras de Vereadores, Assembleia Legislativa e instituições acadêmicas. Conhecida por caminhar pelo Centro de Vitória, sempre ao lado do filho e usando tecidos africanos, Dona Laura morreu em junho de 2020, aos 92 anos.
Astrogilda Ribeiro (1934 – 2021):
Conhecida como Rainha do Congo Capixaba, foi considerada uma das figuras mais importantes desse movimento cultural no Espírito Santo. Além de mestra e rainha da banda de congo de Vila do Riacho, em Aracruz, Astrogilda também foi detentora de outros conhecimentos tradicionais, como os de parteira e guia espiritual. Em reconhecimento pela sua trajetória em defesa da manutenção da cultura popular no Estado, Astrogilda recebeu, da Secretaria da Cultura, em 2009, o prêmio "Mestre Armojo do Folclore Capixaba".
Carmélia Maria de Souza (1937 – 1974):
Cronista e escritora nascida em Fazenda Rodeio, Rio Novo do Sul, escreveu para diversas publicações no Espírito Santo, entre as quais O Diário, Jornal da Cidade, A Tribuna e A Gazeta, nas décadas de 1960 e 1970. Também trabalhou no Museu de Arte Histórica de Vitória e Museu Solar Monjardim. Escreveu o livro Vento Sul, publicado postumamente, em 2002, pela Ufes. Dada a sua importância, dá nome ao centro cultural em Vitória.
Maria Laurinda Adão (1938–2022):
Maria Laurinda Adão foi uma notável mestra popular e guardiã da cultura afro-brasileira no Espírito Santo. Nascida em Viana, dedicou-se à preservação e ao ensino do Congo, sendo uma das principais referências e fontes de sabedoria sobre essa manifestação cultural. Sua atuação foi vital para fortalecer a identidade negra capixaba e garantir a transmissão dos conhecimentos e rituais do Congo para as novas gerações.
Equipe de produção:
Rafael Cláudio Simões – Coordenador da série, doutor em história, professor do Mestrado de Segurança Pública e dos cursos de Relações Internacionais, Direito e Administração da UVV
Bruno Dias Franqueira – Professor dos cursos de Marketing e Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da UVV. Doutorando no Programa de Pós-graduação em Segurança Pública na UVV
Anna Julia de Paula Muzi – Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Daphynne Keyse Pagungue - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Eliza Ribeiro Corrente - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Júlia Pinto de Oliveira Furtado - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Lívia Nicolov Amaral - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Mariana Jarske Navarro - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
[fontes: A Gazeta, Secult, Arquivo Público, "Os negros no Espírito Santo", de Cleber Maciel]