Festas populares que são a cara do ES! Conheça a Festa da Polenta

Ouça detalhes na participação do comentarista Rafael Simões

Publicado em 09/02/2026 às 11h46
44ª Festa da Polenta realizada no Polentão, em Venda Nova do Imigrante, em outubro de 2022
Festa da Polenta realizada no Polentão, em Venda Nova do Imigrante. Crédito: Afepol/Divulgação

Nesta edição do "Espírito Santo: Que História É Essa?", o comentarista Rafael Simões traz um novo destaque das festas populares que são a cara do Estado. Dessa vez é a Festa da Polenta.

A Festa da Polenta, realizada anualmente em Venda Nova do Imigrante, nas montanhas capixabas, é um dos maiores eventos de cultura italiana do Brasil. Mais do que uma feira gastronômica, ela é o resultado de um movimento de resgate da identidade oriundi (descendentes) que transformou uma pequena vila agrícola em um polo de agroturismo nacionalmente reconhecido. Ouça a conversa completa!

1. Contexto histórico: o resgate do Padre Cleto Caliman

Para entender a festa, é preciso entender o cenário da década de 1970. A cultura dos imigrantes italianos, que chegaram à região a partir de 1892, estava sob risco de diluição pela modernização.

O idealizador: o Padre Cleto Caliman, observando o distanciamento dos jovens das raízes de seus avós, idealizou em 1979 um evento que unisse a comunidade em torno de um símbolo comum: a polenta, o "pão dos pobres" que sustentou os colonos nos primeiros anos de mata fechada.

O objetivo social: a primeira edição foi um almoço simples no pátio da igreja para arrecadar fundos para o Hospital Padre Máximo. Esse DNA de solidariedade permanece: a festa é gerida por voluntários e o lucro é revertido para obras sociais da cidade.

2. A engenharia do espetáculo: o tombo da polenta

O ápice da festa é o Tombo da Polenta, um evento que exige precisão técnica e força física.

O caldeirão: o que começou com panelas domésticas evoluiu para um caldeirão gigante de aço inoxidável montado sobre uma estrutura basculante mecanizada.

O preparo: são necessários centenas de quilos de fubá de milho moído em moinhos de pedra (para manter a textura ideal) e milhares de litros de água. O cozimento dura horas, sendo mexido constantemente por voluntários com pás de madeira gigantes.

O ritual do Tombo: ao som de canções tradicionais, o caldeirão é inclinado, despejando mais de uma tonelada de polenta fumegante sobre uma tábua imensa. O vapor, o aroma e a cor dourada criam uma catarse coletiva, simbolizando a fartura após o trabalho árduo.

3. A Carretela Del Vin: etnografia em movimento

Se o Tombo é o coração gastronômico, a Carretela Del Vin é a alma histórica da festa. Trata-se de um desfile que percorre a avenida principal de Venda Nova.

Encenação do cotidiano: as famílias locais montam carros alegóricos que recriam cenas da vida colonial: a moenda de cana, a fabricação de queijos, a lavagem de roupa no rio e o "filó" (reunião noturna de vizinhos).

O vinho livre: como gesto de hospitalidade, o vinho é distribuído gratuitamente a partir de barris nos carros alegóricos. Os participantes vestem trajes típicos que são réplicas fiéis das vestimentas do norte da Itália (Vêneto e Trento) do final do século XIX.

4. Sociologia do Voluntariado: a AFEPOL

A organização da festa é feita pela Associação da Festa da Polenta (AFEPOL). O modelo de gestão é estudado por administradores e sociólogos por sua eficácia:

Engajamento geracional: cerca de 1.500 voluntários trabalham no evento. Existe uma hierarquia de aprendizado: o jovem começa na limpeza ou servindo mesas e, com os anos, assume cargos de coordenação ou o preparo da polenta.

Impacto econômico: a festa foi o motor que impulsionou o Agroturismo no Brasil, conceito que nasceu em Venda Nova e hoje é replicado em todo o país.

5. Linguística e tradição oral: o Talian

Durante a festa, o Talian (ou Vêneto Brasileiro) é ouvido em todos os cantos. Trata-se de uma língua de imigração, reconhecida como Referência Cultural do Brasil pelo IPHAN. As canções entoadas, como "La Bella Polenta" e "Mérica, Mérica", não são apenas entretenimento, mas hinos de resistência cultural que narram as dores e as alegrias da travessia do oceano e da conquista da terra.

6. Fatos curiosos:

A polenta gigante: já foram registrados tombos de polentas que pesavam mais de 1.200 kg, exigindo guindastes e reforços estruturais no centro de eventos.

Eleição da rainha: diferente de concursos de beleza comuns, a Rainha da Festa da Polenta deve demonstrar conhecimento sobre a história da imigração e, muitas vezes, falar frases no dialeto dos antepassados.

A dieta do colono: a festa oferece variações históricas do prato: polenta frita, polenta com molho, polenta com queijo (brustolada) e a polenta com linguiça, recriando a dieta calórica necessária para o trabalho nas lavouras de café.

[fontes consultadas]:

SALETTO, N. (1996). Sobre a Imigração Italiana no Espírito Santo. Revista do IHGES.

CALIMAN, C. (2005). Memórias de Venda Nova: O Resgate de um Povo.

Equipe de produção:

Rafael Cláudio Simões – Coordenador da série, doutor em história, professor do Mestrado e Doutorado de Segurança Pública e dos cursos de Relações Internacionais e Direito da UVV

Bruno Dias Franqueira – Professor dos cursos de Marketing e Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da UVV. Doutorando no Programa de Pós-graduação em Segurança Pública na UVV

Ignez Capovilla Alves – Professora dos cursos de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda e Fotografia da UVV . Doutoranda em Artes Visuais pela UFRJ, mestre em Teoria da Arte na Ufes

Anna Julia de Paula Muzi – Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Daphynne Keyse Pagungue - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Eliza Ribeiro Corrente - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Júlia Pinto de Oliveira Furtado - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Lívia Nicolov Amaral - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica

Mariana Jarske Navarro - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica