Festas populares que são a cara do ES! Conheça a Festa da Polenta
Ouça detalhes na participação do comentarista Rafael Simões
Nesta edição do "Espírito Santo: Que História É Essa?", o comentarista Rafael Simões traz um novo destaque das festas populares que são a cara do Estado. Dessa vez é a Festa da Polenta.
A Festa da Polenta, realizada anualmente em Venda Nova do Imigrante, nas montanhas capixabas, é um dos maiores eventos de cultura italiana do Brasil. Mais do que uma feira gastronômica, ela é o resultado de um movimento de resgate da identidade oriundi (descendentes) que transformou uma pequena vila agrícola em um polo de agroturismo nacionalmente reconhecido. Ouça a conversa completa!
1. Contexto histórico: o resgate do Padre Cleto Caliman
Para entender a festa, é preciso entender o cenário da década de 1970. A cultura dos imigrantes italianos, que chegaram à região a partir de 1892, estava sob risco de diluição pela modernização.
O idealizador: o Padre Cleto Caliman, observando o distanciamento dos jovens das raízes de seus avós, idealizou em 1979 um evento que unisse a comunidade em torno de um símbolo comum: a polenta, o "pão dos pobres" que sustentou os colonos nos primeiros anos de mata fechada.
O objetivo social: a primeira edição foi um almoço simples no pátio da igreja para arrecadar fundos para o Hospital Padre Máximo. Esse DNA de solidariedade permanece: a festa é gerida por voluntários e o lucro é revertido para obras sociais da cidade.
2. A engenharia do espetáculo: o tombo da polenta
O ápice da festa é o Tombo da Polenta, um evento que exige precisão técnica e força física.
O caldeirão: o que começou com panelas domésticas evoluiu para um caldeirão gigante de aço inoxidável montado sobre uma estrutura basculante mecanizada.
O preparo: são necessários centenas de quilos de fubá de milho moído em moinhos de pedra (para manter a textura ideal) e milhares de litros de água. O cozimento dura horas, sendo mexido constantemente por voluntários com pás de madeira gigantes.
O ritual do Tombo: ao som de canções tradicionais, o caldeirão é inclinado, despejando mais de uma tonelada de polenta fumegante sobre uma tábua imensa. O vapor, o aroma e a cor dourada criam uma catarse coletiva, simbolizando a fartura após o trabalho árduo.
3. A Carretela Del Vin: etnografia em movimento
Se o Tombo é o coração gastronômico, a Carretela Del Vin é a alma histórica da festa. Trata-se de um desfile que percorre a avenida principal de Venda Nova.
Encenação do cotidiano: as famílias locais montam carros alegóricos que recriam cenas da vida colonial: a moenda de cana, a fabricação de queijos, a lavagem de roupa no rio e o "filó" (reunião noturna de vizinhos).
O vinho livre: como gesto de hospitalidade, o vinho é distribuído gratuitamente a partir de barris nos carros alegóricos. Os participantes vestem trajes típicos que são réplicas fiéis das vestimentas do norte da Itália (Vêneto e Trento) do final do século XIX.
4. Sociologia do Voluntariado: a AFEPOL
A organização da festa é feita pela Associação da Festa da Polenta (AFEPOL). O modelo de gestão é estudado por administradores e sociólogos por sua eficácia:
Engajamento geracional: cerca de 1.500 voluntários trabalham no evento. Existe uma hierarquia de aprendizado: o jovem começa na limpeza ou servindo mesas e, com os anos, assume cargos de coordenação ou o preparo da polenta.
Impacto econômico: a festa foi o motor que impulsionou o Agroturismo no Brasil, conceito que nasceu em Venda Nova e hoje é replicado em todo o país.
5. Linguística e tradição oral: o Talian
Durante a festa, o Talian (ou Vêneto Brasileiro) é ouvido em todos os cantos. Trata-se de uma língua de imigração, reconhecida como Referência Cultural do Brasil pelo IPHAN. As canções entoadas, como "La Bella Polenta" e "Mérica, Mérica", não são apenas entretenimento, mas hinos de resistência cultural que narram as dores e as alegrias da travessia do oceano e da conquista da terra.
6. Fatos curiosos:
A polenta gigante: já foram registrados tombos de polentas que pesavam mais de 1.200 kg, exigindo guindastes e reforços estruturais no centro de eventos.
Eleição da rainha: diferente de concursos de beleza comuns, a Rainha da Festa da Polenta deve demonstrar conhecimento sobre a história da imigração e, muitas vezes, falar frases no dialeto dos antepassados.
A dieta do colono: a festa oferece variações históricas do prato: polenta frita, polenta com molho, polenta com queijo (brustolada) e a polenta com linguiça, recriando a dieta calórica necessária para o trabalho nas lavouras de café.
[fontes consultadas]:
SALETTO, N. (1996). Sobre a Imigração Italiana no Espírito Santo. Revista do IHGES.
CALIMAN, C. (2005). Memórias de Venda Nova: O Resgate de um Povo.
Equipe de produção:
Rafael Cláudio Simões – Coordenador da série, doutor em história, professor do Mestrado e Doutorado de Segurança Pública e dos cursos de Relações Internacionais e Direito da UVV
Bruno Dias Franqueira – Professor dos cursos de Marketing e Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da UVV. Doutorando no Programa de Pós-graduação em Segurança Pública na UVV
Ignez Capovilla Alves – Professora dos cursos de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda e Fotografia da UVV . Doutoranda em Artes Visuais pela UFRJ, mestre em Teoria da Arte na Ufes
Anna Julia de Paula Muzi – Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Daphynne Keyse Pagungue - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Eliza Ribeiro Corrente - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Júlia Pinto de Oliveira Furtado - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Lívia Nicolov Amaral - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica
Mariana Jarske Navarro - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica