O mosaico da folia: a história do carnaval de rua no Espírito Santo
Vamos conhecer um pouco mais com a participação do comentarista Rafael Simões
O carnaval no Espírito Santo é uma manifestação multifacetada que reflete as diferentes correntes migratórias e geográficas do estado. Ele se divide em três grandes eixos: o Carnaval de Escolas de Samba (em Vitória), o Carnaval de Litoral (Grandes Trios e blocos de abadá) e o Carnaval de Marchinhas, Blocos e Mascarados (na Grande Vitória e no interior). Vamos conhecer um pouco mais destas história com o comentarista Rafael Simões.
1. O fenômeno do carnaval antecipado de Vitória
O traço mais distintivo do Carnaval da capital é sua realização uma semana antes da data oficial do Carnaval nacional.
A estratégia histórica: esta mudança ocorreu na década de 1990 para evitar a concorrência direta com os desfiles do Rio de Janeiro e de São Paulo. Isso permitiu que o Espírito Santo criasse um mercado próprio, atraindo turistas que desejam ver desfiles técnicos no Sambão do Povo (o Complexo Esportivo Walmor Miranda) e ainda ter o feriado oficial livre para outras viagens.
As Escolas de Samba: agremiações como Piedade, Jucutuquara, Novo Império e Mocidade Unida da Glória (MUG) possuem comunidades profundamente enraizadas. A estética é de alto nível, com carros alegóricos monumentais e fantasias que rivalizam com as das capitais vizinhas, sendo o desfile organizado pela LIESGE (Liga das Escolas de Samba do Grupo Especial).
2. O Carnaval de Litoral Norte: A Herança da Bahia
Em cidades como Conceição da Barra e o balneário de Guriri (São Mateus), o carnaval é explosivo e movido pela influência baiana.
O circuito de trios: o modelo é o de circuito, onde trios elétricos percorrem as orlas arrastando multidões. O ritmo predominante é o axé, a lambada e o pagode baiano.
A tradição do Rei de Ramos: em Conceição da Barra, sobrevivem blocos tradicionais que utilizam elementos da vegetação local e fantasias feitas de materiais naturais, uma herança das comunidades pesqueiras e quilombolas da região.
3. Os mascarados e o carnaval de Montanha
No interior e nas cidades serranas como Afonso Cláudio e Santa Leopoldina, o Carnaval preserva elementos europeus e satíricos.
A figura do mascarado (ou "Sujo"): é uma das tradições mais antigas e curiosas. Foliões vestem roupas feitas de trapos, sacos de estopa e máscaras assustadoras ou de animais. Eles saem às ruas para “caçar" pessoas, cobrar pequenos pedágios em comida ou bebida e fazer brincadeiras ruidosas.
Simbolismo: esta prática remete aos antigos entrudos portugueses e às festas de inversão social, onde o anonimato da máscara permitia críticas aos poderosos da vila.
4. O Carnaval do litoral Sul: Iriri, Piúma e Anchieta
O sul do estado é o destino preferido das famílias e dos blocos de rua tradicionais.
Os blocos de abadá e marchinhas: cidades como Piúma e Anchieta (especialmente o balneário de Iriri) concentram blocos que privilegiam as marchinhas clássicas.
5. Sociologia da Ocupação do Espaço Público
O Carnaval de rua capixaba é um campo de disputa e afirmação cultural:
Centro de Vitória: nos últimos anos, houve um renascimento do Carnaval no centro histórico da capital. Blocos como Regional da Nair e Amigos da Onça resgataram a ocupação das escadarias e praças coloniais, trazendo um público jovem que valoriza a música brasileira e a política urbana.
A segurança e a logística: devido à geografia das cidades litorâneas, as prefeituras operam sistemas complexos de interdição de vias e montagem de palcos que transformam as cidades turísticas, que triplicam de população durante os quatro dias de folia.
6. Fatos Curiosos
A influência dos portos: historicamente, os marinheiros que desembarcavam no Porto de Vitória traziam as novidades musicais e os tecidos que eram usados para as primeiras fantasias de luxo dos clubes sociais capixabas no início do século XX.
Fontes Consultadas:
ABRAMO, M. S. (1994). O Carnaval de Vitória: História e Memória.
BORGES, L. C. (2010). Do Entrudo ao Sambódromo: A evolução da folia no ES. Ed. UFES.
LIGA DAS ESCOLAS DE SAMBA (LIESGE). Registros Históricos e Estatutos.
Equipe de produção:
Rafael Cláudio Simões – Coordenador da série, doutor em história, professor do Mestrado e Doutorado de Segurança Pública e dos cursos de Relações Internacionais e Direito da UVV
Bruno Dias Franqueira – Professor dos cursos de Marketing e Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da UVV. Doutorando no Programa de Pós-graduação em Segurança Pública na UVV.
Ignez Capovilla Alves – Professora dos cursos de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda e Fotografia da UVV . Doutoranda em Artes Visuais pela UFRJ, mestre em Teoria da Arte na UFES
Anna Julia de Paula Muzi – Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica.
Daphynne Keyse Pagungue - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica.
Eliza Ribeiro Corrente - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica.
Júlia Pinto de Oliveira Furtado - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica.
Lívia Nicolov Amaral - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica.
Mariana Jarske Navarro - Graduanda no curso de Relações Internacionais da UVV e orientanda de Iniciação Científica.