Pesquisa inédita vai rastrear jubartes e mapear risco de atropelamentos por navios no litoral do ES
Expectativa é que os dados ajudem a identificar áreas de maior risco de colisão entre baleias e embarcações e possam orientar medidas para reduzir a possibilidade de acidentes
Uma pesquisa inédita no Espírito Santo vai usar tecnologia de ponta para tentar reduzir o risco de atropelamentos de baleias-jubarte por navios. Colisões com grandes embarcações podem provocar ferimentos graves e até matar os animais.
A partir da temporada de 2027, dez baleias serão rastreadas por satélite entre Serra e Guarapari. Os pesquisadores vão acompanhar os deslocamentos dos animais e cruzar essas informações com as rotas das embarcações para identificar os pontos onde esse encontro pode ser mais perigoso.
Todos os anos, o litoral capixaba recebe as jubartes para reprodução e nascimento dos filhotes. Só em 2025, os pesquisadores estimaram até 97 nascimentos na região. Mas, durante esses meses, as baleias dividem o mesmo espaço com um intenso tráfego marítimo. Nos complexos portuários de Tubarão, Vitória e Vila Velha, centenas de embarcações circulam e atracam todos os anos.
Os pesquisadores já encontraram baleias com marcas e ferimentos que podem estar relacionados a colisões com embarcações. O ambientalista Thiago Ferrari, diretor do projeto Amigos da Jubarte e do Instituto O Canal, acompanha esses registros desde o início do monitoramento no estado.
"Nos nossos arquivos, infelizmente, temos vários registros de baleias com marcas, cicatrizes e até partes da nadadeira decepadas por possíveis colisões. Em 2024, filmamos uma fêmea com filhote em Guarapari com cortes profundos provocados por hélice. Ela sobreviveu, mas o risco é constante. O monitoramento por satélite vem para dar uma radiografia muito mais detalhada de como as jubartes usam nossa costa, inclusive à noite, quando o drone não enxerga."
Até agora, boa parte dos estudos brasileiros que usam transmissores por satélite em baleias está voltada para os grandes deslocamentos migratórios. No Espírito Santo, a proposta é entender como as jubartes usam o litoral durante a temporada reprodutiva e como esses deslocamentos se relacionam com a presença de embarcações.
Quem explica como a tecnologia vai funcionar é o biólogo marinho e oceanógrafo Jonathas Barreto. Ele compara o monitoramento a um Big Brother das baleias.
"Com o transmissor satelital, a gente não tem o limite de observar a baleia só por alguns minutos do barco. Vamos acompanhar o mesmo indivíduo por semanas ou até meses. É como se fosse o 'Big Brother' da baleia: a gente vai saber exatamente onde ela está a cada momento, a profundidade do mergulho, se está mais perto ou mais longe da costa e, principalmente, a que distância ela está de uma embarcação. Com esses dados, poderemos propor medidas práticas, como alterar rotas de fundeio ou reduzir a velocidade dos navios em áreas de maior risco."
O transmissor pesa menos de cem gramas e é colocado na camada externa de gordura da baleia. A aplicação é feita a cerca de cinco metros de distância, com uma balestra. O equipamento permite acompanhar cada animal por mais tempo e em uma área mais ampla do que seria possível apenas com barcos, drones e outros métodos de observação.
O biólogo Juan Pablo Torrez-Flores, especialista em cetáceos e integrante da Comissão Internacional da Baleia, participa da aplicação dos transmissores.
"O equipamento é projetado para causar o mínimo impacto, e o animal se recupera rapidamente. E é importante lembrar: não se trata apenas da conservação ambiental, mas também de segurança marítima. Uma baleia jubarte pode pesar até 50 toneladas. Uma colisão desse porte causa um impacto enorme em qualquer navio. Evitar esse confronto é bom para a vida marinha e também para o setor portuário."
Os dados produzidos pelo monitoramento podem ajudar a identificar os pontos de maior sobreposição entre a presença das baleias e o tráfego marítimo. A partir dessas informações, os pesquisadores poderão propor medidas de prevenção, como mudanças em áreas de fundeio ou redução da velocidade das embarcações em locais considerados mais críticos.
O projeto de rastreamento recebeu recursos do Fundo Estadual do Meio Ambiente do Espírito Santo. E a pesquisa se conecta a outra frente: o desenvolvimento de um turismo de observação de baleias mais organizado e sustentável no estado.
O diretor-geral da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo, a Fapes, Rodrigo Varejão, destaca a relação entre ciência, conservação e desenvolvimento econômico.
"O edital NISA, negócio de impacto socioambiental, ele visa estimular o desenvolvimento econômico sustentável. Em particular, nesse edital, demos destaque ao ecossistema marinho. E muitas propostas buscaram aliar o conhecimento técnico científico, o conhecimento do ecossistema com o desenvolvimento econômico, inclusive das comunidades locais. E um projeto em particular que recebeu destaque, é esse que aliou esse conhecimento com o turismo. Então, estimulando o desenvolvimento do turismo na região."
Enquanto os transmissores vão produzir informações para entender como as jubartes ocupam o oceano e onde seus caminhos podem se cruzar com os dos navios, o projeto Quero Ver Baleias busca transformar esse patrimônio natural em uma atividade turística que dependa justamente da conservação.
A proposta une ciência, conservação e desenvolvimento econômico. De um lado, a pesquisa tenta encontrar formas de tornar mais segura a convivência entre baleias e grandes embarcações. De outro, o turismo de observação busca mostrar que a presença desses animais também pode gerar conhecimento, renda e oportunidades para as comunidades costeiras.
Para os pesquisadores, o resultado esperado não é apenas acompanhar dez baleias, mas ampliar o conhecimento sobre uma população que volta todos os anos ao litoral capixaba e transformar esses dados em ferramentas de conservação.
Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de CBN Vitória.